O Corpo de Bombeiros Militar de Sergipe (CBMSE) promoveu, na manhã desta quarta-feira, 8, no auditório do quartel central de Aracaju, a solenidade de abertura da 6ª turma do Programa Reformação. Coordenada pelo Núcleo de Saúde Ocupacional (NSO), a iniciativa visa preparar os profissionais da corporação que estão prestes a ingressar na reserva remunerada, com ações e orientações voltadas a promover maior bem-estar.
De acordo com a subcomandante do CBMSE, coronel Maria Souza, o projeto é fundamental para garantir qualidade de vida à tropa nesse processo de transição, já que a natureza do trabalho do bombeiro militar é de alto risco e demanda preparação física e mental para lidar com situações traumáticas e, ao ingressar na reserva, essa rotina é modificada.
“É importante focar na saúde ocupacional dos nossos militares. As exigências emocionais diante dos tipos de ocorrências que atendemos, aliadas ao estresse e à necessidade de atuar com rapidez em emergências, são pontos que precisam de atenção e apoio organizacional. Nossa preocupação estende-se para o momento em que o militar não estiver mais na ativa. É por isso que o Reformação se tornou aliado nas metas estratégicas de minimizar os riscos à saúde do bombeiro”, explica.
O evento contou com a palestra “Missão Vida Civil: do Estado de Alerta ao Estado de Presença”, ministrada pela psicóloga Ana Carolina Bezerra, que reforçou a necessidade de o bombeiro que segue para a reserva remunerada ensinar o corpo a agir sem estado de hipervigilância. Segundo a especialista, o militar que já cumpriu sua carreira profissional pode apresentar sintomas do desmame operacional, tais como insônia, irritabilidade com a lentidão do mundo civil, sensação de vazio ou falta de propósito.
“Esses sentimentos são naturais no processo de transição e podem gerar impacto. Assim como os equipamentos do quartel precisam de revisão, a mente do combatente também precisa de cuidados para não ‘pifar’ na reserva. Os bombeiros aprenderam, durante anos de serviço, a serem ativos. O que acontece com o corpo e a mente quando a sirene para de tocar? Como é a realidade de quem viveu décadas em prontidão? Existe o luto da identidade profissional, o risco de se sentir invisível sem o uniforme. O seu corpo foi treinado para a guerra, mas agora precisa ser retreinado a existir”, destaca.
Ana Carolina ressaltou que os bombeiros militares atuam em resposta rápida, com adrenalina, alerta e prontidão, sendo comum a desregulação do cortisol. “O sistema nervoso do bombeiro vive em constante simpaticotonia (luta ou fuga); o organismo se habitua a grandes doses de cortisol e adrenalina, preparado para atender ocorrências a qualquer momento. As estratégias de transição para o corpo são: higiene do sono e regulação do ciclo circadiano; atividade física como lazer, não como obrigação; e check-ups de saúde de forma integral e regular. Já para a mente, a sugestão é o resgate de hobbies engavetados, novas formas de servir e falar sobre o que sente. Pode-se focar o contato com a família sem a pressa do plantão. Quem é você quando ninguém está precisando ser salvo? Eu sou sempre a pessoa que salva o outro. Mas, quando preciso de ajuda, quem me salva? Agora que já servi o que tinha que servir, quem sou eu?”, questionou a palestrante.
Ao todo, 87 bombeiros militares já participaram das últimas cinco edições do projeto. Cada turma tem, no máximo, 25 voluntários. Os inscritos passam por vivências e módulos em encontros quinzenais, que tratam de temas como trabalho x aposentadoria, aspectos jurídicos e financeiros, qualidade de vida e bem-estar, empreendedorismo e projeto de vida. Para a coordenadora do NSO, capitã Rosângela Gomes, a iniciativa tem alcançado bons resultados, auxiliando os profissionais a refletirem e planejarem seu novo ciclo na reserva remunerada.
“Normalmente, os bombeiros inscritos ingressam no projeto achando que é mais um curso. Depois, mudam essa percepção. No Reformação, trabalhamos temáticas importantes que ampliam o horizonte deles a respeito do que é necessário para enfrentar essa nova fase da vida. Ao final do projeto, fazemos uma partilha de feedbacks e eles relatam, com frequência, que entraram achando que não estavam preparados e, durante o processo, passam a ter uma nova visão do que precisam fazer quando forem para a reserva. Muitos vão para a reserva e agradecem a oportunidade de ter tido orientações importantes. Alguns são convidados a retornar aos encontros como palestrantes, relatando sua experiência”, diz Rosângela.
Fonte: Ascom CBM/SE
